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Confira o artigo de Alex Paiva e Alexandre Loureiro sobre aprendizagem adaptativa, especialmente para a Revista TecEduc

Que a jornada dos professores brasileiros é intensa e extensa, isso todos nós já sabemos. Que as turmas frequentemente são muito grandes e heterogêneas, é fato incontestável, facilmente observado em grande parte das escolas públicas e em uma parcela considerável de escolas particulares. E nesse ponto reside, talvez, a maior agonia de um professor: o fato de não poder atender a todas as necessidades dos seus alunos de forma adequada, seja auxiliando os que possuem dificuldades de aprendizagem, motivando e mantendo o interesse deles em aprender, ou atendendo àqueles com os melhores desempenhos.

Porém, com o auxílio da tecnologia, essa realidade está mudando. Em uma escola do Ensino Médio, o professor Marcos Vidal se prepara para utilizar uma ferramenta digital de aprendizagem com seus alunos. Ele sabe que daqui a algumas semanas o conteúdo trabalhado no livro didático será Logaritmos e, por isso, utiliza a ferramenta para ter certeza que todos os seus estudantes estarão preparados para enfrentar esse novo desafio. A ferramenta utilizada por Vidal tem a capacidade de mapear individualmente as dificuldades e os pontos fortes de cada um de seus alunos.

Durante a aula, cada aluno utiliza seu tablet para responder aos desafios e avançar, no seu ritmo, pelos conteúdos propostos pelo professor. Enquanto os alunos trabalham, o educador caminha pela sala de aula com seu dispositivo móvel em mãos analisando em tempo real o desempenho da turma. Ao final dos 40 minutos de aula, Vidal faz a análise dos relatórios e percebe que muitos estudantes realizaram todos os conteúdos propostos: alguns concluíram 80% da tarefa e outros chegaram apenas até a metade. Então, o professor explica: “o objetivo não era completar a tarefa, pois cada aluno caminha no seu ritmo”. Na verdade o que ele estava interessado em descobrir eram quais conteúdos de Logaritmos seus alunos já dominavam e quais conteúdos deveriam ser revisados. Após passar os olhos novamente pelos resultados obtidos, o professor indaga “pelos relatórios, já sei que vou ter que trabalhar radiciação na próxima aula. Muitos dos alunos ainda estão com dúvidas sobre esse tema”.

Enquanto isso, em uma escola pública de Curitiba (PR), a professora Christiane Cardoso trabalha a aprendizagem adaptativa com seus alunos do 6º ano do Ensino Fundamental. A ferramenta, que apresenta o mesmo conceito, é utilizada uma vez por semana pela professora e por todos os demais docentes de Matemática do 6º ano. Com esse aplicativo digital, a inteligência do sistema cria uma trilha individual para cada aluno, dependendo do desempenho dele nos conteúdos anteriores. O estudante vai seguindo um passarinho que indica o caminho a ser seguido dentro de uma “floresta” de conteúdos. Sobre essa experiência adaptativa, a professora Christiane completa: “a maioria dos meus alunos estão fazendo conteúdos do 6º ano, mas também tenho alunos fazendo conteúdos do 4º e até do 3º ano”.

Em ambas as experiências, podemos perceber como o estudante vem recuperando o seu lugar de protagonista no processo de aprendizagem, e também, como a tecnologia consegue ampliar a visão do professor, fazendo com que ele consiga enxergar de forma mais clara e detalhada as dificuldades ou habilidades especiais de cada aluno de sua turma. Nesse processo, as facilidades e dificuldades de cada um deles tornam-se muito mais evidentes e abrem espaço para tratamentos imediatos.

Mas como se chama tudo isso? Existem vários nomes para identificar esse novo modelo de ensino e aprendizagem que começa a despontar nas escolas brasileiras. Pesquisadores da área da educação chamam essa tendência de Aprendizagem Diferenciada, Individualizada, Personalizada ou Adaptativa. Entretanto, a gênese de todos esses termos está no conceito de Inteligência Artificial desenvolvido durante a década de 1970, onde se acreditava que eventualmente a “máquina” conseguiria se “adaptar” ao comportamento humano. Nos últimos anos, porém, o conceito de aprendizagem adaptativa tornou-se uma abordagem quase que exclusivamente educacional.

Segundo o pesquisador Alexandros Paramythis, da Universidade Johannes Kepler, a aprendizagem adaptativa começou a despontar a partir do momento que educadores se deram conta de que a customização da aprendizagem não conseguiria ser atingida em larga escala se continuassem a utilizar os métodos tradicionais, sem terem o apoio da tecnologia. A partir daí, o uso do computador para geração e análise de dados fez com que programas pudessem criar caminhos de aprendizados inteligentes que pudessem ser melhorados com o passar do tempo. A aprendizagem adaptativa reduz de forma drástica o peso da avaliação formal em forma de prova. Pois, ao trabalhar em uma solução adaptativa, o aluno está constantemente sendo avaliado de forma com que o professor não precise mais esperar semanas para saber o nível de compreensão deles sobre cada conteúdo estudado.

A gama de intervenções pedagógicas disponibilizadas por meio do uso de tecnologias de aprendizagem adaptativa é enorme. Entre os cenários de uso possíveis, destacam-se a aplicação de avaliações processuais e diagnósticas (nivelamento), adoção de ações de recuperação de aprendizagem pontuais e efetivas e o atendimento das necessidades das escolas na oferta de atividades de contraturno, como aulas de reforço, estudo dirigido e agendamento de tarefas personalizadas.

Além disso, as soluções adaptativas vão além da sala de aula conta o Engenheiro Mecânico Eduardo Cardoso: “essa semana utilizei um novo método para estudar para a prova de matemática com a minha filha”. Cardoso, que dedicava horas do final de semana para estudar com sua filha, resolveu adotar uma ferramenta adaptativa. “Simplesmente pedi para que a Maria Eduarda fizesse seis módulos de Matemática, depois vi os resultados das avaliações e estudei com ela apenas o que ela realmente tinha dificuldade”, relata. O engenheiro conta que a maioria das dificuldades da filha foram “tratadas” pelo próprio software e que ele teve apenas que mediar a situação de estudo. “Ficou tudo muito mais fácil, pois o tempo de estudo ficou completamente otimizado”, avalia.

O interessante e mais inovador sobre essas experiências é perceber como paradigmas vem sendo quebrados nas escolas brasileiras. Com base nessas iniciativas podemos perceber como as escolas e as famílias vêm fazendo um esforço para se adaptar ao jovem do século XXI. Entretanto, não podemos pensar que a construção do conhecimento seja entendida unicamente como individual. Afinal, esta é produto da atividade marcada pelo social e pelo cultural. A construção do conhecimento, em um contexto escolar/familiar, depende do clima estabelecido pelo professor/pais, da relação empática com seus alunos, de sua capacidade de ouvir, refletir e discutir o nível de compreensão dos mesmos e da criação das pontes entre o seu conhecimento prévio. (Behrens, 2009)

É por meio dessas rupturas, que se constrói uma nação protagonista de pensadores autônomos que atuam de maneira efetiva dentro da sociedade mundial atual. Muitos educadores já estão cientes de que os modelos da escola e de ensino devem mudar e se adequar a esta nova forma de aprender, personalizada e autônoma, que leva em consideração as habilidades e dificuldades individuais, mas que também exige a adoção de currículos mais modernos, que contribuam efetivamente para uma melhor qualificação do ensino e que sejam coerentes com as novas tendências educacionais, onde a tecnologia, sem sombra de dúvidas, veio para ficar.

Alex Paiva
Mestre em Tecnologia e Interação pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná e Gerente de Produtos da Positivo Informática Tecnologia Educacional.

Alexandre Loureiro
Biólogo formado pela Universidade São Judas de São Paulo e Coordenador de Desenvolvimento de Conteúdo da Positivo Informática Tecnologia Educacional.